O Fantasma da Moron

A casa mal-assombrada

Por volta do ano de 1953 uma rua da cidade de Rio Grande ficou famosa por causa de um fato inusitado. Era a rua Moron, onde um suposto fantasma apavorava as redondezas. Na Rádio Minuano, onde eu era um jovem radialista, ficamos sabendo do assunto e fomos conferir. Naquele local, uma residência vinha sendo apedrejada durante as madrugadas.

Num primeiro momento, a família reagiu fazendo plantões, tentando desvendar o mistério por seus próprios meios. Nada conseguindo, resolvem apelar às autoridades. A polícia cerca a moradia, colocando agentes inclusive nos pátios vizinhos para apurar o fato. Mas de nada adiantam as diligências. As pedras continuam a pipocar sobre o telhado da fatídica residência. Assim sendo, a explicação para o acontecimento toma o rumo do sobrenatural: a casa só pode estar 'mal-assombrada'.

A alma do outro mundo

Nosso pessoal fica sabendo que o fato acontece na casa de um conhecido professor de Artes Cênicas da cidade. Não demorou para que eu visse no fato a chance de fazer a transmissão, direto do local, ou melhor, da casa mal assombrada.

No final da tarde, cheguei à casa da rua Moron, com o equipamento de 'externas'. Notei que as pessoas da família estavam exaustas, mal-dormidas. Havia uma “platéia” que, à cada noite, aumentava mais. Como radialistas, nosso objetivo era captar através do som, a chegada da 'alma do outro mundo'. Ficaríamos de plantão esperando o 'fantasma'.

Cabos e microfones

Perguntei ao pessoal qual era o local onde o ruído mais se fazia presente (era uma casa grande, com um grande pátio). Responderam que era mais sobre a cozinha. Subi no telhado e coloquei um microfone estrategicamente posicionado para captar qualquer manifestação.

Como eu não podia usar um cabo longo por causa dos microfones de alta impedância, coloquei um pré-amplificador próximo a eles. Estendi outro cabo até a frente da residência onde estávamos com a linha principal e fiz um paralelo.

Chapéu à Casablanca

As onze da noite, eu e o 'locutor/repórter' retornamos ao local para começar a transmitir. Era o período das Festas Juninas e a noite estava fria. Meu colega tinha o sugestivo nome de Roberto Estrela. Tragava seus cigarros à la Humphrey Bogard e usava aquele tipo de chapéu à Casablanca. Com a desculpa da voz, tomou uma cachaçinha com mel. Até hoje acho que foi também para espantar o medo.

Como rádio é, acima de tudo, criatividade, coloquei um microfone dentro do grande relógio da rádio e disse ao operador:"...à meia-noite, abra o microfone para que as badaladas do relógio sejam ouvidas". O clima estava criado.

Amendoim, pipocas, churrasco e pinhão

Meia-noite o relógio tocou e Estrela, voz grave e pausada, atacou: "O relógio marca meia-noite e a Rádio Minuano, num patrocínio da Funerária Guerreiro - 'Do mais simples ao mais requintado' - passa a falar diretamente da rua Moron, para levar aos ouvintes uma idéia exata e clara do caso do 'Fantasma da Moron' (sobe cortina musical apropriada). Nossos microfones espalhados pelos vários pontos da residência, dificilmente deixarão de registrar qualquer ruído da sobrenatural criatura.” (sobe novamente a cortina musical).

"Os rio-grandinos, em bom número, encontram-se aqui em frente à casa assombrada. Pipoqueiros, vendedores de amendoim, churrasquinho e pinhão, anunciam seus produtos enquanto as assombrações não iniciam. Reina grande expectativa na cidade e temos certeza que nossos ouvintes acompanham tudo em seus lares, pelo rádio."

O bolero "Dos Almas"

Enquanto isto, dentro da casa, serve-se café a noite inteira. Fritam bolinhos, alguns bebem algo e acima de tudo fumam desesperadamente. As crianças, assustadas, procuram dormir no colo dos pais. Há muito 'diz-que-diz' e ninguém na verdade consegue conciliar o sono. Enfim, é um drama. Pessoas são entrevistadas, as opiniões variam, o tempo passa e nada do fantasma manifestar-se.

Vez em quando o vento fazia um barulho mais forte no microfone do telhado e os ouvintes da vizinhança abriam suas janelas, curiosos. Tudo seguia naquele suspense. Num dos intervalos, Estrela pediu que o estúdio rodasse uma música, enquanto aguardavam o fantasma. O operador não vacilou e atacou de 'Dos Almas'(*), um lindo e sugestivo bolero.

Aqui, ó!

Na volta dos comerciais, entrevistamos um delegado de polícia. Ele disse que estavam trabalhando no caso havia três noites. O policial acreditava que aquilo tudo não passava de uma brincadeira de mau gosto. Queriam resolver o caso rapidamente, pois estava causando transtornos à família e também à cidade.

No exato momento em que o delegado falava um estrondo se fez ouvir em nossos fones e nos receptores da cidade. Imediatamente após, um pequeno ruído agudo que repetia-se ao fim de poucos segundos:..tsk..tsk...tsk...tsk... e depois parou. Todos se entreolharam, estáticos por mais alguns segundos, após o que, Estrela dirigindo-se à mim gritou, no ar:...Holmes...vai lá, conferir o que houve! Então respondi:...Eu??...Aqui, óóó!!!

Epílogo

Voltei ao local na manhã seguinte e descobri que, com o vento, o microfone havia caído e ficara pendurado no telhado, como um pêndulo. Roçava nas folhas das árvores e causava aquele estranho efeito sonoro. Passados alguns dias, as pedras pararam de ser atiradas no telhado e a cidade voltou à vida normal. Nunca mais se falou no Fantasma da Moron!!!

(*)música incidental: Ibrahim Ferrer - Dos Almas



Seu Holmes2010 ©Todos os direitos reservados